Breve Resenha do 'Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil'
Ganhei o livro recentemente num amigo secreto. Ele não é bom, mas como o presenteador não sabia, o que vale mesmo é a intenção.
Embora eu tenha um pé atrás com intelectuais – vale ressalvar que é só um pé, afinal, dois seria algo mais perigoso que nenhum, se é que me faço entender –, ganhei o livro por “ser” um deles. Isso pelo menos em tese, na classificação do amigo. Pois bem, devido a esse tal pé atrás, estou meio relutante em escrever essa resenha e mesmo divulgá-la. Por que vou fazer isso?
Bom, não resisti. É que uma coisa tem me incomodado nas duas últimas leituras que fiz (uma leitura dinâmica de trechos de uma dissertação de mestrado e a leitura do guia em questão), qual seja, a pretensão de trazer uma grande verdade que se propõe a derrubar muitas verdades. Noutras palavras, demonstrar, através de uma grande verdade – daí inclusive a tentativa generalizante dessas obras – quão frágeis são uma série de verdades razoavelmente bem aceitas. O problema é que “a grande verdade”, por vezes, sai mais frágil que as “verdades razoavelmente bem aceitas”, ainda que muitas destas últimas sejam realmente frágeis.
Sei que toda obra tem um pouco disso tudo que falei – e, às vezes, é até bom que tenha -, mas algumas se pretendem um tanto demais, digamos.
Assim, se “guia politicamente incorreto” quer, em tese, que não aceitemos verdades mastigadas com facilidade, vou fazer o que ele me pede – com o próprio livro. Ademais, o fato do guia estar vendendo muito – por motivos óbvios, que não se relacionam à qualidade – meio que pesou na decisão de escrever sobre ele. Dá pra dialogar com muitas pessoas.
O fato mencionado acima (“vendagem”) também pesou na minha decisão sobre um dilema que surgiu ao folhear a obra: afinal, por que ler um livro que, numa breve folheada, parece conter uma série de erros que poderiam ser facilmente evitados se o autor procurasse algumas informações simples sobre uma série de assuntos do qual parece querer tratar?
Além da “vendagem”, tive outros motivos para continuar a leitura. Primeiro porque já fiz isso no passado (e devo fazer ainda, em momentos mais desatentos): chegar a conclusões fortes com dados, leituras e interpretações fracas, mas nem todas as conclusões estavam erradas (pelo menos até agora). Ou seja, nem tudo que o autor escreveu pode estar errado. Pode ser apenas que ele não esteja sabendo defender uma idéia ou outra. Como há algumas “idéias novas”, elas me interessam. Podem me atentar para pesquisas mais rigorosas no futuro.
(Se bem que esse último motivo é menor, pois também serve para outros livros que não vendem tanto.)
Outro motivo é que, como já ficou subentendido, é um livro que se fosse classificado como “progressista” ou “conservador”, estaria no segundo grupo. “Ora, isso é motivo para deixar de lê-lo, e não o contrário!” Pelo que tenho vivido até agora, eu até concordo com isso (não dá tempo de explicar o porquê agora), mas não quando se está há um bom tempo sem leituras desse tipo como estou. O presente veio numa época boa. Ademais, é natal e as pessoas estão ocupadas bebendo (fazem bem, pois poderiam estar lendo o “guia”...).
Explico melhor. Se eu quero e tento, ainda que não no nível de dedicação que pretendo empreender de 2012 pra frente, transformar positivamente a ordem das coisas, tenho que ouvir o pessoal que se mata dia-a-dia pra manter tudo do jeitinho que está, mesmo que isso signifique correr o risco de estar dialogando com pessoas que, em verdade, não querem dialogar, mas simplesmente manter um monte de gente em condições que lhe permitam, por exemplo, pagar baixos salários; controlar jornadas de trabalho etc. – ou mesmo pretensões mais simples, mas igualmente ameaçadas, como habitar espaço(s) privilegiado(s) ou algo do tipo. Como eu penso que nem todas as pessoas conservadoras, ou tendentes a isso, são assim, frentes de diálogo ganham relativa importância. Até o próprio autor do livro pode se encaixar ou não no que falei.
Ainda sobre esse assunto, uma das qualidades do livro é se posicionar politicamente de uma forma bem clara em várias ocasiões. Prova disso é o risível delírio final: “Viva o Brasil capitalista!”. Algo que faz quase tanto sentido pra mim quanto “Viva a Cuba comunista!”. (e, se for comparar, é capaz de Cuba ganhar, mas não me proponho a isso). Enfim, deixando de lado a briga de torcidas, vou tomar como pressuposto que o livro se leva a sério, afinal, provocações, por mais que não sirvam pra nada, não invalidam uma obra. Inclusive fiz uma besta a dois parágrafos acima.
O estilo da minha “resenha” (não quero ficar preso àqueles modelos que a gente aprende em “metodologia” na faculdade) vai fugir um pouco ao meu preferido. Geralmente, não sou tão detalhista, mas o livro é quase uma coletânea de artigos – não estou falando mal dele com isso. Portanto, acho interessante dividir a resenha em capítulos (equivalentes aos do livro), mesmo que não goste disso. Ainda assim, não pretendo registrar aqui todas as minhas discordâncias e impressões, pois teria de escrever dias e dias – ainda não estou falando mal do livro, apenas esclarecendo que discordo de muitas coisas. Também pretendo usar um tom parecido com o do livro, embora também não goste disso.
Aproveitando os meus “ainda não estou falando mal do livro” do parágrafo acima, quero começar enfatizando algumas qualidades. Nada muito especial. Graficamente é interessante, a leitura é simples e ele tem boas táticas pra aguçar a curiosidade do leitor. Tudo bem que eu ficava meio decepcionado com o que ia lendo a cada “chamada” – que sempre geravam grande expectativa – mas o objetivo de prender a atenção, se existiu, foi cumprido. Bem, vamos ao primeiro capítulo.
Capítulo 1 – Ìndios
Pulei a Introdução (o comentário, não a leitura dela), pois ela é meio que um apanhado das pretensões do livro, que já foram parcialmente comentadas aqui. Faço apenas um acréscimo.
Muito convenientente, o título da introdução é “A Nova História do Brasil”. Bom, o “mal de Jesus Cristo” não é uma invenção do Narloch. Seja na direita ou na esquerda, há gente forçando a barra, quase diariamente, para colocar seus escritos como fazendo parte de algum movimento (ou até liderando este) que, em tese, simboliza o novo marco do calendário do conhecimento ou ciência X ou Y. Ademais, deve ajudar a vender, pois é muito comum em campanhas publicitárias de cervejas e políticos. Ora, descobertas como “a feijoada é européia” (um dos destaques da orelha do livro), embora tenha sua importância, não é sequer nova, muito menos essencial.
Vamos aos índios. Teoricamente, eu deveria ter pouco o que criticar aqui, por ser um tema que não cheguei a aprofundar, mas algumas partes do livro são ainda mais rasas. Ademais, este será o maior capítulo da resenha, visto que vou tentar sintetizar nele, os grandes defeitos gerais do livro.
Pra começar há um defeito que é, talvez, o mais recorrente e frustrante do livro. Trata-se do “mal da propaganda enganosa”, digamos. A introdução do livro dá a entender que terminaremos a obra com outros olhos sobre a história do Brasil e que uma série de fatos essenciais foram invenções ideológicas. Não é isso que ocorre. As “novidades” reais mesmo são referentes somente a fatos não tão importantes ao ponto de se falar numa “nova história” (e olha que realmente há erros no ensino de história nas salas de aula, tanto pra um lado como pro outro). Os dominadores continuam dominadores. O mesmo para os dominados. Entretanto, o livro vacila entre se contentar com isso, fazendo ressalvas não muito expressivas, ou tentar ver se não cola uma revisão.
Exemplo da primeira opção (ressalva não expressiva) neste capítulo sobre os índios são as exceções que confirmam a regra. Assim pra justificar afirmação de que os índios não foram vítimas indefesas (e alguém defende que eles foram?), o autor alerta que isso não significa “negar as caçadas que os índios sofreram” (p. 33). Continua com afirmações do tipo “muitos índios foram amigos dos brancos, aliados em guerras (...)” e “(...) não houve só tragédias e conflitos durante aquele choque das civilizações”. É óbvio que a vida de todos os índios é mais que um filme de terror hollywoodiano de duração eterna, mas se caçadas, conflitos e tragédias – para usar as palavras de Narloch - são elementos “pra lá de significativos” desse “filme”, há uma clara relação de dominação e exploração aí. O mesmo vale para o exemplo dos “Souza” na página 42. Ao tratar dos índios que, talvez por instinto de sobrevivência mesmo (breve desenvolvo melhor essa reflexão sobre os “contratos” entre índios e portugueses), tenham se integrado à cultura portuguesa, Narloch festeja o exemplo por mostrar que o esvaziamento indígena não veio “só” de ataques e doenças...
Exemplo da segunda opção (ver se cola uma revisão) está, incrivelmente, na mesma página 33 – ou seja, não há sequer muito espaço entre as vacilações. Trata-se de uma citação de um trabalho – Narloch não especifica o tipo – de Maria Regina Celestino de Almeida (a citação é “os índios transformaram-se mais do que foram transformados”), que parece ter servido de base para toda a primeira parte do primeiro subtópico. Estranhamente, só são citadas as páginas 139-140. Não há qualquer problema usar poucas páginas do trabalho, mas o autor tira conclusões grandiloquentes para o pouco que afirma e traz. Assim, termina um parágrafo do subtópico referido com um emblemático “muitos índios deviam achar bem chato viver nas tribos ou nas aldeias dos padres. Queriam mesmo era viver com os brancos (...)”. Restam tantas perguntas após isso, que o afirmado torna-se pouco significante. Ora, “muitos” quantos? (ao menos saber se era a maioria). Como se sabe o que esses tais “muitos” “deviam achar”? O que significava viver nas tribos ou com os jesuítas? Em que condições se davam as outras opções? Alguém defende que os jesuítas eram “santos”? Qual o critério para se medir se os índios se transformaram ou foram transformados? Como se separa essas duas coisas? Quanto de dominação-exploração houve nessas transformações?
Enfim, é menos prejudicial à qualidade do livro quando o autor opta por tratar a obra como uma coletânea de ressalvas pouco significantes (a primeira opção), mas aí a leitura torna-se um pouco mais que uma curiosidade. Ocorre que o livro parece não ter condições de ser algo mais que isso. Falta seriedade a uma “coletânea de pesquisas históricas sérias” (pretensão declarada do livro), na qual não se explica porque uma pesquisa citada deve ser considerada séria, ou seja, não se diz de onde viria sua força. Chego a ter curiosidade de conferir a fonte citada para saber se a autora, nas tais páginas 139-140 também conclui tanto sobre um assunto tão delicado ou se Narloch quis ir além dela usando apenas ela!
Outro erro é apelar para o hollywoodianismo histórico. Ora, é claro que a chegada dos portugueses era uma grande oportunidade de contato entre povos (p. 34) e não era algo potencialmente nocivo em si mesmo. Também é óbvio que nem todas as consequências foram ruins. Mas importa muito mais o que aconteceu após o contato. Se uma civilização extraterrestre chega ao Planeta Terra e se põe a promover caçadas, conflitos e tragédias – termos de Narloch - sobre os habitantes do globo terrestre dificilmente um historiador que afirma que estamos ignorando o lado sensacional do rompimento do isolamento cultural estará fazendo a interpretação mais razoável do fato. Isso por mais que talvez muitos humanos sobreviventes tenham gostado da presença dos invasores e até bebido e dançado com eles. Aliás, a analogia “terráqueo-ET” serve pra compreender diversos momentos infelizes do livro.
E aqui entramos em outro ponto bastante grave da obra. O fato de portugueses terem feito alianças com tribos contra outras tribos não torna os primeiros menos culpados de nada. Aproveitar-se de rivalidades internas para conseguir boas alianças de guerra é tática usada por dominadores desde que a dominação existe e chega a assustar que alguém queira argumentar que essas mortes merecem ser atribuídas somente aos índios (vide título do subtópico)... Ainda mais quando, após a intervenção externa, ela passa a se dar numa escala mortífera nunca antes vista. Assim, o título “quem mais matou índios foram os índios” é quase tão infeliz – pra não falar da falta de seriedade mesmo – quanto um “quem mais maltratava os escravos eram os capitães do mato, os inocentes senhores só faziam um mero acordo ‘salarial ou de sustento’ com estes” (Narloch não disse isso, é apenas uma comparação, afinal, os índios, segundo o próprio livro, passaram a capturar imigos para agradar aos portugueses escravagistas, eis que precisavam das mercadorias destes – p. 38). Aliás, alguém tem dúvida de que os alienígenas da analogia adotariam táticas de cooptação e aproveitamento das rivalidades locais (talvez até com direito a traição posterior de alianças táticas) se isso se mostrasse necessário? Ora, o homem continuaria sendo o pólo dominado do fato. Isso não quer dizer que o mesmo seja um boneco passivo.
O fato de se jogar bem um jogo (a guerra), não torna o jogo (a guerra) justo se esse jogo (a guerra, vale sempre lembrar) é injusto em si. A não ser que o autor considere a guerra um meio legítimo de sustento material mesmo quando um dos pólos não está passando por dificuldades de sustento ou algo parecido.
Algumas afirmações são extremamente estranhas. Baseado numa revista de “letras e culturas lusófonas”, Narloch coloca que os tupis-guaranis já haviam inciado o massacre por volta da época do Império Romano. Ora, um massacre que dura 1500 anos e não dá conta do recado dificilmente é comparável às “caçadas, conflitos e tragédias” empreendidas pelos portugueses. Não se trata de inocentar os tupis-guaranis, à época na condição de dominadores (se a fonte confere), mas não entendi em que isso “inocenta” os portugueses, já que uma das teses do livro é que nem sempre o estrangeiro é o dominador.
Ás vezes, a sensação que dá é que Narloch pretende passar a idéia de que os índios não podem responsabilizar os portugueses pelas tragédias, tendo em vista que também eles, índios, guerreavam. Na analogia do extraterrestre, algum “historiador pós-invasão” (humano inclusive) defenderia que os Estados Unidos, por exemplo, devido à sua conduta, teriam legitimado o extermínio de toda a raça humana por uma hipotética civilização com maior poderio bélico.
Aliás, essa lógica levada ao extremo só pode mesmo trazer consequencias terríveis pra qualquer civilização que se pretenda saudável. Parece uma “corrente do bem” às avessas. Se fulano faz algo ruim, eu posso fazer o que fulano faz (até numa proporção maior, já que o que importa é que fulano também fez). Se fulano joga lixo no rio, cicrano, que tem uma empresa, também pode despejar seu lixo industrial lá. E por aí vai.
A questão não é se índios ou portugueses são maus, bons, “menos malzinhos”, “mais ou menos malzinhos” etc. O que importa são os atos e suas consequências. E o fato é que a população indígena descresceu vertiginosamente com a presença portuguesa, com fins exploratórios (e planos bem claros para a população indígena). Epidemias, caçadas, conflitos, tragédias não são meras curiosidades históricas que servem para atestar um índice de maldade de um povo, mas sim fatos históricos com consequências extremamente graves que devem ser levadas em conta ao se discutir a luta dos indígenas no Brasil atual.
Talvez o pior problema do livro – nessa parte - seja o de imaginar uma espécie de contratualismo ingênuo entre índios e portugueses.
Ora, fazendo um joguinho de reflexão – artifício muito usado pelo livro – nota-se que não existe ‘contrato’ puro entre quem tem grande potencial bélico e quem não tem. No lugar de um chefe indígena, qualquer um não teria muitas dificuldades em aceitar um ‘acordo’ com o potencial inimigo mais poderoso se esse lhe oferecesse alguma paz temporária ou mesmo perpétua. É até uma boa maneira de se defender dele. Não há tanta liberdade assim nesse tipo de escolha, ainda mais quando o lado mais forte tem pretensões não muito escondidas, afinal, o próprio “objeto do ‘contrato’” era mão-de-obra escrava de outros povos indígenas. Se ambas as partes estão erradas (até pelo motivo de que o “antes eles do que eu” também não soluciona nada), a portuguesa é a determinante para as conseqüências já mencionadas.
E aqui é preciso prestar bastante atenção em alguns elementos emblemáticos da crítica que estou a fazer. O “contratualismo ingênuo” está tão impregnado no texto de Narloch – talvez pela inexplicável vontade de atenuar o fato do português ter promovido caçadas e escravizado índios – que o autor chega a escrever, por exemplo, que o os índios se mudavam para as vilas da sociedade mineira por iniciativa própria (p. 43). Mas isso na mesma frase em que coloca como um dos prováveis motivos para tal decisão o sentimento de ameaça com relação aos conflitos com os brancos nas suas aldeias. Ou seja, a tal “iniciativa própria” é pra lá de relativa.
Outras afirmações do livro em vez de afrouxarem as correias da exploração – como pretendem – servem, na verdade, para demonstrar como os portugueses tomavam decisões sobre a vida indígena. Exemplo é quando Narloch festeja a integração “índio-português” (p. 45-6) com o seguinte exemplo: “Na década de 1750, (...) Portugal resolveu transformar as aldeias indígenas em vilas e freguesias”. A frase é simplesmente sem comentários.
O livro também peca consideravelmente ao tentar fazer malabarismos com os números sobre descendência indígena. Uma das conclusões mais irrefletidas do autor tem a ver com a falta de reflexão sobre as causas da baixa autodeclaração indígena. Poucos “índios” se enxergando enquanto índios (p. 46) é algo que se relaciona justamente com a exploração que esses povos sofreram historicamente. O mesmo ocorre com a dificuldade que negros, por vezes, têm de fazer tal autodeclaração. Ou seja, o que era pra reforçar sua tese do “os índios não foram tão exterminados assim” (digamos), só a enfraquece. Inclusive o esmagamento cultural é algo que passa batido no “guia”. A questão não é se sobraram 325.000 ou 650.000, afinal, eram cerca de 3,5 milhões de índios a época do “descobrimento”. Esse número inclusive foi mencionado pelo mesmo geneticista que Narloch usa para defender que a alta presença de “DNA indígena” no sangue brasileiro é fruto de uma “integração” substancial. Trata-se de uma “integração” banhada com inúmeras mortes e aniquilamentos de traços culturais. Não importa tanto se o número é razoavelmente menor.
(Se me permitem, desde logo, outra analogia: do mesmo modo, uma ditadura qualquer que comete violências contra centenas de inocentes não se torna automaticamente “menos ruim”, digamos, porque outra foi além e violentou milhares.).
O subtópico em que trata das benesses advindas do rompimento do isolamento cultural tem algumas coisas interessantes a meu ver, entretanto, o autor faz o relato de uma forma em que parece que os índios nada tinham a oferecer aos portugueses devido ao fato de terem permanecidos isolados geograficamente do contato com outras culturas.
Quanto à parte “quem destruiu as florestas”, senti falta de dados. Se não me engano, a cobertura vegetal declinou aceleradamente com a chegada dos portugueses, mas o livro afirma que estes eram rigorosos protetores da floresta. Enfim, faltou mais estatística. O fato de existirem leis ambientais não prova nada. Basta ver como elas são ineficientes no Brasil atual
Ainda segundo o livro, por algum motivo, seria injusto responsabilizar os portugueses pelas epidemais que exterminaram boa parte dos índios, pois isso é normal nos contatos humanos. Ora, não se trata de um simples “contato humano”. Trata-se de um grupo de pessoas que invadiu diversos territórios com objetivos bastante questionáveis, como por exemplo, escravizar povos indígenas. Por que esquecer esse detalhe o tempo todo? Alguém defende que isso é justo ou que não causou problemas graves posteriormente?
Mas a pior parte do livro é, de longe, a conclusão do subtópico que pretende inocentar os índios de matarem um bilhão de fumantes no século XXI, digamos. Narloch conclui dizendo que, assim como os índios não têm culpa na difusão do tabaco pelo mundo, os “outros” têm que deixar de ser responsabilizados pelos “problemas” dos índios. Claro, já que esses “problemas” certamente nada têm a ver com as “caçadas, tragédias e conflitos” citados no começo do capítulo pelo próprio historiador que parece, agora, querer apagar a história... (com quais objetivos?) Como se a questão das terras indígenas não guardasse nenhuma relação com a expulsão, temor e fuga causados pelas caçadas, por exemplo... Assim fica difícil não encarar o livro como mero panfleto ideológico. Nunca é demais lembrar como certas autoridades de tempos inclusives menos sombrios (ao menos em tese, o Segundo Império foi um período mais ‘avançado’ que os anteriores) viam a questão indígena:
(...) Índios de diversas tribos da raça puri, muitas das quais descem das selvas de Minas, e das cabeceiras do Moqui, na província do Espírito Santo, e das margens do rio do Castelo, e do rio Preto. Esta raça é uma das que se conhece mais fácil de ser domesticada, mais votada ao trabalho, e de melhor índole (...) (FERRAZ, Luiz Pedreira do Couto. Relatório do presidente da província do Rio de Janeiro, 1849, p. 52, grifo nosso)
A segunda pior parte do livro talvez seja o trecho em que Narloch pretende demonstrar que os bandeirantes não eram tão ruins assim. O título do subtópico (Os Bandeirantes Não Eram Heróis. Não?) é dos mais lamentáveis. Resumidamente, tudo que se faz é afirmar que os historiadores variam os números da matança de Raposo Tavares entre 15 mil e 150 mil, mas que a fonte em que ele mais confia pode diminuir o número para menos de mil ou menos de vinte mortes. Ademais, achou por bem acrescentar que os bandeirantes nem sempre matavam, mas às vezes faziam os índios se mudarem através de promessas falsas de melhoria de vida. Faltou explicar o que há de heroísmo nisso tudo aí e o motivo de chamar a matança de “aventuras de Raposo Tavares”. Afinal, passar por dificuldades na floresta ser motivo suficiente para qualificar alguém como herói só pode ser piada.
Capítulo 2 – Negros
Depois dos vergonhosos trechos mencionados nos últimos parágrafos, tive que encontrar alguma animação para continuar lendo o livro e a esperança veio na idéia de que o pior já tinha passado. Nem tanto. O capítulo sobre o povo negro é quase tão ruim quanto o dos índios – que é, certamente, o pior.
Pelo menos não há, neste capítulo, inovação quanto aos principais defeitos do livro. Narloch em nenhuma parte do texto coloca o quanto é irrelevante para a injustiça da escravidão, se o escravizado naturaliza ou não a sua condição (ou mesmo deseja estar no pólo opressor). Outra obviedade histórica é que, não raro, oprimidos e explorados podem se converter em opressores e exploradores se tiverem uma chance. Não precisa sequer ler livro de história pra isso, mas observar o cotidiano. Nada disso deslegitima a crítica central a esse período brasileiro: escravidão, opressão e exploração existiram e não decorreram de relações justas. Ademais, tudo isso teve consequências atuais e gravíssimas que qualquer pessoa em sã consciência percebe (certamente também Narloch).
Enfim, fazendo mais um exercício mental simples, é óbvio que se alguém não se enxerga com poder suficiente para mudar as regras do jogo, vai se contentar em estar bem posicionado no mesmo, o que implica estar do lado explorador, até por enxergar isso como uma coisa natural. E o fato de boa parte da população ter achado a escravidão algo natural não a validava. Isso a semelhança do que ocorrerá com futuras gerações, quando os próximos habitantes da Terra (essa ainda existindo) olharão para o passado e se envergonharão de coisas abomináveis que fazemos hoje, mas que, para nossa geração, é tão natural como foi a escravidão para outras. Inclusive a literatura da época será avaliada. Livros que hoje são aceitos sem muita vergonha, tornar-se-ão igualmente abomináveis, assim como já acontece com algumas obras que se empolgavam com o stalinismo e-ou nazismo.
Uma parte do livro me deixou extremamente preocupado com tudo que li antes e mesmo com o que li depois. Trata-se do trecho sobre Palmares. Isso não pela “novidade” que de novidade pouco tem: havia escravos em Palmares. Mas sim pela clara distorção dos fatos. Em nenhum momento aparece a informação de que nos primeiros períodos do quilombo a realidade não era essa e que foi justamente a necessidade de proteger Palmares dos ataques portugueses a principal causa da escravidão e outros atos lamentáveis dos aquilombados. Eu esperava do autor do “guia”, no mínimo, o mesmo rigor com que trata os atos das “minorias” (pra usar o termo dele, p. 83). Por que só revelar fatos desconhecidos “do outro lado”? Ainda mais quando os problemas de um dos lados tem tudo a ver com a guerra promovida pelo outro (também um fato não muito conhecido do público em geral). Enfim, por sorte, eu conheço alguns textos variados sobre Palmares, mas e quanto às outras partes do texto? Será que ele não está com os mesmos casos mal explicados nas outras dezenas (centenas) de fatos trazidos? Se eu, que não sou formado em história, posso fazer uma breve resenha com inúmeros equívocos do livro, imagino o que fariam os historiadores se resolvessem perder tempo com o “guia”.
Um mal recorrente do capítulo é a “exceção que confirma a regra”. “Ah, mas negros não foram apenas vítimas”. É óbvio que há exceções. O importante é saber se há exceções que têm alguma relevância atual, já que elas não mudam a regra, que é a exploração do negro pelo branco. Talvez o exemplo mais ridículo – infelizmente não há outra palavra – seja o do subtópico “Muito Além da Casa-Grande”. O título é devido a uma peça de teatro de 1838 que mostra senhor e escravo comendo na mesma mesa. Ora, isso era uma peça de teatro, não a regra.
Com a eliminação dos capitães-do-mato na década de 1820, o controle da população escrava urbana passou a ser compartilhado cada vez mais pelos senhores e o Estado. A tarefa direta da punição disciplinar foi outra área em que se deu essa colaboração no interesse mútuo de subjugar a população escrava. Na década de 1820, as autoridades policiais continuaram a aplicar o açoite corretivo a pedido dos senhores de escravos, cobrando uma taxa mínima de 160 réis por centena de golpes, mais 40 réis por dia para cobrir os custos de subsistência, sem fazer perguntas sobre o suposto delito. Uma relíquia da era escravista, que ainda deve chocar o leitor moderno, é o livro em que se escriturou a receita proveniente do pagamento desse serviço no ano de 1826. Naquele ano, um total de 1.786 escravos, entre os quais 262 mulheres, foram açoitados no Calabouço a pedido de seus senhores, o que dá uma média de quase cinco por dia. A maioria recebeu 200 açoites, enquanto alguns receberam 50 e outros, 400. Nesse ritmo, os funcionários da prisão passavam várias horas por dia açoitando escravos. (HOLLOWAY, Thomas. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX. Rio de Janeiro: FGV, 1997, p. 64)
(...)
Alguns senhores que despejavam lixo nas ruas e praças também não tinham escrúpulos em jogar fora seus escravos agonizantes, em “um estado de perfeita nudez”. Quando visitou a cidade em 1814, Schillibeer ficou horrorizado ao ver “tantos escravos mortos nas ruas”. Quando pediu uma explicação, disseram-lhe “que quando doentes e considerados sem recuperação, eles eram rejeitados por seus senhores, para evitar despesas de um funeral, e jogados porta afora, quando suas vidas miseráveis eram logo levadas a um miserável fim. Quando qualquer desses cadáveres é encontrado (o que ocorre constantemente), um soldado é posto sobre ele com uma caixa, e o corpo não é removido do local até quando uma quantia suficiente seja deixada pelos passantes para custear as despesas decorrentes do enterro”. Quando morriam os filhos dos escravos, uma prática comum era abandoná-los à noite diante da porta de uma igreja para que fossem enterrados, enquanto outros eram deixados na roda dos expostos. (KARASCH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp. 190/191)
(...)
É óbvio que nem todos os escravos teriam a sorte de receber até mesmo a dieta dos pobres, pois dependiam completamente da distribuição inadequada que seus senhores faziam da farinha, que tem pouco valor nutritivo, feijão e um pouco de carne-seca, se tanto. Com freqüência demasiada, a refeição era composta apenas de farinha coberta com suco de laranja, uma dieta claramente insuficiente para suprir as necessidades de proteína de um homem ou uma mulher que realizava trabalho físico pesado, e particularmente inadequada para mulheres grávidas ou amamentando, bem como para crianças e adolescentes. (KARASCH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 206)
Ao fim do capítulo, mais uma parte ruim. Narloch, através de um exercício de unicausalismo dos mais contestáveis, faz o que ele acusa, durante todo o livro, os outros historiadores de fazer. Trata os negros como bonecos passivos – e, pra piorar, mal-agradecidos, já que não agradeceram aos libertadores ingleses, digamos. Assim, as revoltas escravas do século XIX não são sequer mencionadas. Enfim, quem não tem leitura de outras fontes sobre o período é capaz de terminar o capítulo achando mesmo que os negros não desempenharam nenhum papel especial na abolição. Ademais há o erro de confundir os abolicionistas da Inglaterra com a Inglaterra. Tanto eles não estavam no poder que suas campanhas foram influenciando apenas muito gradualmente as decisões políticas da época, como mostra o espaço de tempo entre o início das campanhas e a definitiva abolição inglesa.
Inclusive creio que se Narloch conhecesse algumas frases extremamente racistas e preconceituosas – que se pretendiam científicas – de Hume e Locke sobre negros e índios (vide obra “Contra-história do liberalismo” de Domenico Losurdo), ficaria profundamente arrependido de alguns de seus escritos sobre o assunto. Vale lembrar que se trata, aqui, de duas das personalidades inglesas mais influentes de toda a história que, certamente, refletem ao menos parcialmente o espírito de suas épocas. Nada mais normal. Teorias pseudocientíficas e racistas faziam sucesso mesmo na Europa do fim do século XIX, ou seja, após a morte dos pensadores citados. Levou um tempo até figuras como “Lombroso” ficarem ridicularizadas. Agradecer aos ingleses? Só rindo. Talvez à barulhenta parte abolocionista e, ainda assim, após tantos outros agradecimentos mais urgentes, como, por exemplo, aos negros que se revoltaram contra a exploração e enfrentaram a ira de autoridades da época, sempre culpando a raça indolente pelo ‘caos’.
Pode-se mencionar ainda outro problema gravíssimo, que é o de tomar a “abolição brasileira” como fim da história do negro no Brasil. Em nenhum momento do livro, vê-se uma visão crítica do ocorrido no período da “abolição”. Ocorre que visões críticas sobre esse processo podem ser encontradas inclusive em autores ultradireitistas ao tratarem das questões das terras na América Latina (vide alguns textos, por exemplo, de Murray Rothbard, um estrangeiro), o que só piora a situação do autor do “guia”.
Vale sempre bater numa tecla: Que “nova história” há em revelar que a história não é feita de vilões e heróis (embora Narloch tente criar os seus mocinhos e bandidos durante todo o livro, vide exemplo acima dos ingleses e o dos bandeirantes)? A meu ver, não há nenhuma novidade. O que a maioria dos livros traz, e nisso estão corretissimos, é que existiram no passado relações de opressão e exploração e que essas explicam boa parte da realidade atual. Isso só mesmo um historiador de má-fé poderia negar e, por presumir boa-fé, prefiro crer que Narloch não tentou fazer isso.
O “guia” traz uma série de “novos” fatos históricos que, em tese, até por ocuparem boa parte do livro (ele todo?), seriam importantes. Entretanto, em nenhum momento fica clara a importância atual destes. O que implica mostrar que Zé Alfaiate foi escravo e depois se tornou traficante de escravos? Implica que os negros não foram inaceitavelmente explorados pelos brancos? Claro que não e acho que ninguém defende isso. “Ah, mas tambem teve negro entrando no jogo dos brancos”. Ok e quais foram as consequências atuais que esse fato histórico apresentou? Por que foi selecionado? O que ele explica da nossa realidade atual? Pra mim só serve para demonstrar que nenhuma relação de dominação pode se dar de uma forma extremamente rígida, impermeável, perfeita. Pelo menos não por centenas de anos.
Capítulo 3 – Escritores
Neste capítulo, ao contrário dos anteriores, há diversas críticas que fazem sentido (isso até por ser um capítulo menos pretensioso que os demais). Narloch, inclusive, poderia refletir, tendo em vista o que escreveu até o “Escritores”, sobre até que ponto ele próprio não se encaixa em parte dos modelos denunciados... Enfim, só não vou me prolongar por não considerar importante aqui esse tipo de crítica.
Porém, algumas coisas precisam ser comentadas.
O capítulo também tem algumas amostras do quanto Narloch é cuidadoso ao lançar suas ‘verdades’. Quem conhece um pouquinho da história do senador Bernardo de Vasconcelos sabe que sua argumentação não era exatamente a apresentada na página 117 do “guia”. Era inclusive bem diversa. Experimente ler o que está lá e depois saber que a argumentação do político conservador passava pela idéia de que a vinda de escravos para fazer trabalhos indesejados liberava os “grandes homens”, que podiam, assim, enriquecer e crescer - e mais coisas do tipo. Ora, não há nada de “politicamente correto”, como Narloch diz, nisso. Boa parte dos argumentos do senador podem ser vistos aqui (vale conferir quão politicamente corretos eles são):
http://www.universosdahistoria.net/volume1/Jo%C3%A3o%20Carlos%20Escosteguy%20Filho.pdf
Enfim, se Narloch remodela fatos a seu bel prazer, como posso confiar nos relatos que ele faz sobre temas que eu não domino razoavelmente? Ainda assim, estou tomando várias afirmações do autor do “guia” como verdades provisórias. Isso não me impediu, entretanto, de mostrar inúmeros erros numa obra relativamente curta (o livro tem 367 págs.). Como não tenho tanto conhecimento assim de história brasileira, isso significa que o livro é, no mínimo, fraco. Ou pelo menos o mais fraco livro de história que já li, por mais que não tenham sido muitos.
Capítulo 4 – Samba e Fascismo
Não conheço o assunto, ou seja, abstenho-me de maiores comentários. Mas achei estranho não haver qualquer linha sobre o outro berço do samba, a Bahia. Será mesmo que a raiz do samba é tão “menos autêntica” assim? (se é que me faço entender).
Capítulo 5 – Guerra do Paraguai
Também não conheço o assunto a ponto de debatê-lo com profundidade. De positivo, surgiu o interesse em pesquisar mais sobre ele. Mas algumas teses apresentadas por Narloch são risíveis em si, como a de que uma das causas da guerra foi a falta de jornais privados para controlar a loucura de Solano López (claro, assim como os jornais privados e partidos políticos impediram eficientemente, nos últimos anos, as bobagens de Bush em vez de apoiá-lo acriticamente...). Ademais, é de se estranhar a presença de uma série de informações sem dizer a fonte – aliás, um mal infelizmente recorrente do livro. Há dezenas de informações importantes sem qualquer menção da fonte pelo “guia”.
Também muito mal explicado o fato de Narloch culpar o Paraguai por “não ter ficado em paz quando o Brasil invadiu o Uruguai.” Cá pra nós que se um país (regionalmente poderoso) invade outro, os demais da mesma região devem, no mínimo, ficar atentos. Enfim, afirmações como essas não podem ficar sem maiores explicações. No entanto, foi o que aconteceu. Não duvido dos erros e defeitos de Sólano López, mas atribuir a culpa unicamente ao Paraguai me parece tão exagerado quanto o oposto.
Também são estranhas algumas críticas que Narloch traz à tona em relação à figura de Elisa, a mulher de Solano López, apresentando-a como uma pessoa fútil que se preocupava com o guarda roupa enquanto os paraguaios passavam fome. Ora, isso é incomum na sociedade da época ou mesmo com a nossa? A crítica vale pra todo mundo que faz isso? Ou é só birra com os desafetos? “Ah, mas a guerra trouxe fome extrema”. Então se for a pobreza “normal” do dia-a-dia, tudo bem? Tais perguntas ganham especial relevo com a lembrança de que uma das propostas – ao menos declaradas – do livro é não cair nos esquemas mocinho-vilão. Talvez a essa altura do livro isso já tenha sido esquecido.
Outro erro. Ou melhor, contradição performativa. Usar “interesses ingleses” para explicar a “culpa” da Inglaterra seria coisa de historiador parcial, politiqueiro, ou sabe-se-lá-o-que. Entretanto, a explicação de Narloch para inocentar a Inglaterra (que, por algum motivo, sempre aparece como anjo no livro) se baseia - adivinhem no que? - nos interesses econômicos ingleses (!), que, em tese, seriam abalados pela guerra. Aí vale. Faltaram apenas duas coisas: a) explicar porque a outra tese não vale, já que a questão não é somente a quantidade de dinheiro que o Brasil tomou emprestado, e b) pensar sobre se a guerra não é mesmo mais lucrativa que os tais negócios que seriam “abalados”. Enfim, mais uma das dezenas ou, quem sabe, centenas de explicações rasas do livro. Não que os dados trazidos não tenham importância, mas o autor do “guia” devia ter percebido que eles sozinhos não dizem muita coisa.
A parte que inocenta o exército brasileiro também é cheia de perólas ao estilo “ocorreram estupros e assassinatos de paraguaias indefesas”, mas também houve “ajuda” e “até casamentos” (p. 195). Ora, ninguém está reclamando dos tais casamentos ou das exceções que confirmam a regra. Outro argumento é que os brasileiros não mataram tanto assim como se diz, pois o censo não era confiável e tal. Argumentos parecidos não cansam de ser repetidos por defensores de figuras bastante criticadas por Narloch (com razão) como Hitler e Stálin. Por causa disso, chega-se a afirmar que não houve genocídio – como se as “novas porcentagens” citadas pelo próprio livro fossem baixas...
Aliás, ao fim do capítulo, afirma-se inclusive que o Brasil foi “bonzinho” (p. 196) com o Paraguai, pois a indenização cobrada pela guerra foi perdoada em 1930.
Capítulo 6 – Aleijadinho é literatura;
Capítulo 7 – Acre;
Capítulo 8 – Santos Dumont
Todos secundários, a meu ver. Mesmo neles há defeitos graves. No caso do primeiro, como o próprio título dá a entender, lança uma série de dúvidas até sobre a existência do artista, mas de nenhuma maneira o pouco apresentado justifica a conclusão (“é literatura”). Realmente é difícil não dizer que é uma manchete sensacionalista – o que é até “tranquilo”, tendo em vista os inúmeros problemas graves do “guia”.
Quanto ao Acre, por algum motivo (que sinceramente desconheço), Narloch o escolheu como Cristo, digamos. Entretanto, não faz qualquer sentido lamentar que o Acre faça parte do Brasil. Pelo mesmo raciocínio que ele utilizou ao final do capítulo, seriam eliminados diversos estados, um-a-um, até sobrarem cidades, que também poderiam ser eliminadas, uma-a-uma, depois bairros, casas, indivíduos... E o melhor mesmo, no fim das contas, seria a República Brasileira Eike Batista e Só. Até o próprio Narloch iria cair fora num determinado momento. Aliás, pra quem critica o nacionalismo, colocar que o Acre não ajuda os interesses nacionais é algo, no mínimo, contraditório. Enfim, um dos capítulos mais nonsense.
Também não considero tão importante saber qual vôo foi mais legítimo, o de Dumont ou dos Wright. Até li o capítulo todo (infelizmente não pulei nada do livro), mas é o típico texto que não faria falta.
Capítulo 9 – Elogio à Monarquia
A idéia central desse capítulo é a de que os processos de independências de boa parte dos demais países foram seguidos de batalhas sangrentas e outras tragédias. Se as coisas não andaram bem no “pós-independência” dos países da América Latina – até por fatores externos em muitos casos – não entendi em que isso implica elogiar o que houve no Brasil.
É um dos piores capítulos do livro por motivos bem simples: afirma que o conservadorismo brasileiro à época do Império (e de brinde, o longo sistema escravocrata) é preferível a um suposto “caos entre os cidadãos” (p. 274) (não sei se os escravos, por exemplo, são considerados cidadãos nessa citação aí). Eu realmente nem preciso comentar isso. Um caos que supera uma ordem escravocrata de quase cem anos tem que ser realmente muito caótico. E como garantir que existiria esse caos? O próprio Narloch afirma que houve, por exemplo, a exceção chilena a esse “caos” dos outros países. Nunca vi se pregar tão abertamente o “medo de ser feliz”. Aproveitando a deixa, Narloch diz que é mais ou menos o mesmo caso da ditadura de 64. Preferível para o contexto. Assim como imagino que saudaria, bem como diversos consevadores europeus da época, a ascenção do fascismo europeu como um mal menor e necessário.
Aliás, a lógica do “poderia ser pior” é a preferida de muita gente questionável quando se trata de exercer poderes. É, por exemplo, o discurso de muitos petistas quando criticados pela falta de, ao menos, um projeto popular no seu governo. “Na época do FHC, era pior”... “se o PSDB vencer, será pior”.
Narloch certamente deve conhecer boa parte das teorias que justificavam a escravidão na Idade Antiga (uma delas é de John Locke, liberal da Era Moderna). O raciocínio era simples. Se, numa guerra, posso matar um homem, vira ato de piedade transformar este mesmo homem num mero escravo. Afinal, pior seria se eu matasse a pessoa. Assim fica legitimado todo tipo de canalhice, bastando algum vizinho ter feito algo pior ou semelhante (isso tomando como pressuposto um julgamento correto, o que dificilmente acontece no “guia”). Aliás, não é a primeira vez que esse tipo de lógica pouco construtiva ou significante aparece no “guia”.
Tem mais. Ter que ver um sistema, que incluia a escravidão e uma bizarrice chamada “poder moderador”, ser elogiado como “projeto bem pensado” (p. 275) em pleno Século XXI? Com o perdão do termo, é uma aberração.
A lógica do “poderia ser pior” também está presente na defesa do “poder moderador”. Narloch afirma, por exemplo, baseado não sei em qual apanhado estatístico (ou mesmo nenhum), que Dom Pedro II só tamava decisões autoritárias em raros momentos (p. 277). Automaticamente penso que as outras eram legítimas decisões democráticas. Claro. Porque o que existia no Brasil nessa época era uma democracia... Faz todo sentido...
Mais a frente, a gente descobre que Pedro II sequer gostava de ser chefe do poder Executivo e Moderador, coitado. Até preferia ser mero presidente ou simplesmente um professor. Isso é tomado como verdade por Narloch. Por quê? Porque Dom Pedro II disse, oras.
Narloch faz críticas pesadas a Pedro I (imperador 1822-31), mas também traz o seu “lado bom”: a Constituição de 1824! Voto censitário não era um problema, afinal, como explica o “guia”, a renda mínima para poder votar era baixa... ... Realmente isso é elogiável... Principalmente numa sociedade com milhões de escravos...
Uma parte estranha é a que relata que a separação Brasil-Portugal não estava em pauta nos debates políticos dos anos anteriores à “independência”. Ora, é meio difícil tomar isso como verdade já que vários movimentos pela independência foram esmagados em anos anteriores. Logo, como assim “ninguém queria se separar de Portugal”? Os massacrados são “ninguéns”? Por que são “ninguéns”? Era uma sub-raça? Obviamente que isso não passa pela cabeça de Narloch (espero), logo, inaceitável que coisas assim fiquem sem qualquer explicação na obra.
Algumas informações trazidas não possuem muita relevância. O fato de boa parte da população apoiar a escravidão (se existiu mesmo tal apoio) não nos diz nada sobre a justeza ou não da própria escravidão ou das consequências destas. No máximo, reforça a tese marxista de que as idéias da classe dominante geralmente são as idéias dominantes de uma época. Ou seja, a naturalização da escravidão, à época, é algo esperado. O que não se espera, sinceramente, é que alguém venha elogiar, em nossos dias, um sistema que se caracterizava por traços como esses aí.
Enfim, mais um capítulo que não faz qualquer sentido, por falta de atualidade das poucas novidades trazidas. Não passa de uma defesa despropositada (na melhor das hipóteses) de mais um período ruim e vergonhoso da história brasileira.
Capítulo 10 – Comunistas
O capítulo se inicia com uma longa crítica a Prestes. Não vejo muito problema nelas (com algumas até concordo), mas no fato do livro querer tomar Prestes como símbolo do “sonho socialista”. Ora esse “projeto” é tão heterogêneo quanto os “projetos capitalistas” de que fazem ou fizeram parte gente tão diversa como Schumpeter, Hitler e Narloch. Ou seja, é um erro primário reduzir a luta anticapitalista a Prestes – devido à sua qualidade “top of mind” ou algo do tipo. Por isso mesmo, essa parte do capítulo nem merece muitos comentários.
Sobre a parte em que tece críticas aos comunistas que lutavam contra a ditadura brasileira, Narloch faz algo que deveria ter feito em diversos outros capítulos, admitir as “selvagerias” (p. 313) praticadas contra seus “desafetos” - ao fim do livro, não consegui achar um termo mais ameno. Pena que isso dure algumas frases simples, mas não dava pra esperar muito mais.
Há fatos verdadeiros, mas a interpretação que se faz deles é primária e ideológica. Isso sem mencionar alguns absurdos como a idéia de que não havia motivo para se empreender guerrilha antes de 68 (p. 316). Isso pelo suposto motivo de que a ditadura ainda não era tão ruim como ficou depois - quando nem habeas corpus valia mais. Ora, as pessoas podem decidir por quem querem ser governadas, como querem, ou mesmo se querem. Até liberais concordam com isso, mas Narloch, lamentavelmente, parece ter dificuldades em aceitar esse direito básico, o que gera momentos lamentáveis no livro, de defesa de “males menores”, digamos.
Outro erro comum do capítulo é pegar exemplos isolados de ações desastradas e tirar pretensas “lições gerais” delas. Assim, uma ação imprudente vira “exemplo da imprudência dos guerrilheiros” (p. 320). Quais guerrilheiros? Todos?
Outra pergunta se coloca: qual a importância de se passar páginas falando sobre como a ditadura brasileira foi “menos atroz” que a maioria das outras? Ademais, o método de comparação da “malvadeza” das ditaduras é infantil. Repleta de erros talvez causados por má-vontade mesmo. Só pra citar alguns: a) Utilização, sem a devida problematização, de contextos históricos completamente diferentes. b) Escolha despropositada do Camboja – já que a lógica usada pelo próprio Narloch era comparar com modelos que declaradamente serviam de inspiração aos guerrilheiros. c) presunção ridiculamente falsa de que um regime que “se inspira” em outro apresentará resultados iguais quanto a índices tão específicos como “número de mortes”.
Também é interessante notar as incoerências do autor - aliás, um traço marcante de todo o livro. Os números de mortes dos eventos que não pretende criticar com a mesma ênfase – por mais que sejam gravíssimos – com que critica outros (esse outros são, obviamente, os eventos dos seus “alvos”) são sempre considerados exagerados ou, no mínimo, incertos. No entanto, o número de mortes dos regimes que critica (às vezes com alguma razão) é sempre apresentado como algo inconteste, por mais que outras fontes históricas apresentem outros números, como muita gente sabe. Ora, como não considero muito importante saber qual ditadura é mais “mortal”, isso não me incomodou tanto, mas é algo a ser notado.
Algumas “teses” aparecem sem muito motivo. Assim, a “os militares torturavam tanto porque eram pouco inteligentes” em nada inocenta os mesmos. Qual a relevância atual dessa informação (se é que é verdadeira)?
Num trecho do livro (p. 332-3), há uma frustrada tentativa de elogiar a pouca interferência dos militares na livre iniciativa. Isso porque Narloch se limita, num dos piores usos de estatísticas que já vi, – a exemplo do que petistas fizeram nas últimas eleições, comparando, sem a devida contextualização, os índices econômicos da “era Lula” e dos “anos FHC” – a vomitar números e eleger, sem maiores explicaçoes, algumas categorias como produtoras dos mesmos. Entretanto, a ponte entre uma coisa e outra não é feita, deixando o texto mais panfletário que campanha política feita por marqueteiro. Extremamente superficial (pois é, mais uma parte assim). Muito castrista ou stalinista não teria dificuldades para fazer um panfleto semelhante a fim de defender seus “líderes”, com resultados econômicos até mais volumosos – embora igualmente enganosos.
Porém, o que mais impressiona é que Narloch, devido a uma coletânea extremamente limitada de fatos arbitrariamente escolhidos, parece chegar ao final do livro certo de que compreendeu minimamente as correntes que lutavam contra a ditadura militar, afinal, só isso explica o seu delírio final (p. 336, a última página), tão messiânico quanto o messianismo que criticou uma página antes, de que o Brasil foi salvo pelo “governo” – sim, ele se referia à ditadura – e pela “sociedade brasileira” – não, não faço idéia quem seria esta e nem ele diz – da ameaça dos “profetas da salvação”. (e, pra piorar, faz a leitura mais acrítica que já vi sobre índices de melhoria de vida). Como tive acesso recentemente há alguns textos mais interessantes sobre a história das esquerdas nesse período, só me restou lamentar a superficialidade da “pesquisa” contida no “guia”, quase que completamente inutil para mim. Conclusões megalomaníacas advindas de argumentos falhos são, em verdade, um dos piores defeitos que qualquer pesquisador pode ter. E, infelizmente, o final do capítulo em questão não é amostra isolada disso, como já deu pra perceber. Peço desculpas ao autor do livro pela expressão, mas é querer caçar no mato sem perceber que está usando uma pistola de brinquedo.
Enfim, se fosse pra dar uma nota pro livro, seria 1 ou no máximo 2. Com tantos livros bons por aí – inclusive escritos por conservadores -, este se mostrou uma grande perda de tempo.
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